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RECORDAR É CORRER

Por Sergio Coutinho Nogueira


Presidente da Editora Multiesportes e da equipe BM&F/Atletismo. É ex-presidente da Federação Paulista de Atletismo
 
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Maratonas olímpicas

Todos lembram da cena da suíça Gabriela Andersen Scheiss, que terminou a maratona dos Jogos Olímpicos de 1984, exatamente na primeira maratona feminina e que foi vencida brilhantemente por Joan Benoit, com o tempo de 2h24min32, mesmo sob um sol forte e uma temperatura elevada. A suíça terminou em 37º lugar, em 2h48min42, mas até hoje sua chegada cambaleante é lembrada por todos. Mas o que poucos sabem é que por causa dele é que a IAAF fez o artigo Andersen Scheiss, que permite que o atleta receba assistência médica durante uma competição sem ser desclassificado.

 
 

Poucos sabem também que já houve uma vítima na maratona olímpica. Foi em 1912, em Estocolmo, com o português Francisco Lazaro, em dia de muito calor e sol, com 32° Celsius. A morte não se deveu apenas ao ritmo muito forte na elevada temperatura e sim, ou sobretudo, pelo fato de o português ter se untado com sebo e óleo para se proteger do calor e, com isso, dificultado a transpiração cutânea. Os técnicos de Lazaro, descobrindo o que havia feito pouco antes da largada, ainda tentaram tirar boa parte do produto, mas pelo desfecho verificou-se que não conseguiram o pretendido. Lazaro passou a ser um herói de nossos irmãos portugueses, que viram na vitória de Carlos Lopes, em 1984, uma forma de resgatar a possível vitória de Lazaro em 1912. Na prova de Estocolmo, em foto e filme, vê-se que Lazaro era dos poucos que não usava lenço ou boné protegendo a cabeça. Por volta do km 30, caiu vítima de insolação.

 

E os argentinos? Sim, eles mesmos já tiveram seus momentos de glória nas maratonas olímpicas. Foi em 1932, em Los Angeles, a maratona em que o fenomenal Paavo Nurmi foi impedido de participar, acusado de profissionalismo dias antes da prova. O finlandês, que havia conquistado 9 medalhas de ouro olímpicas em Jogos anteriores, queria fechar com chave de ouro na Maratona de Los Angeles, mas não pôde. Nurmi, na seletiva finlandesa, liderava até o km 40,2 com 2h22min03, dentro do tempo de recorde mundial, e parou faltando pouco para o final, mas mostrou perfeita adaptação à prova em sua única participação.

O jovem argentino Juan Carlos Zabala, de 21 anos, recordista mundial dos 30 km, assumiu a dianteira desde o início, contrariando o que se esperava. Cerca de 2 meses antes, o jornal Los Angeles Time havia organizado uma maratona no percurso olímpico e Zabala liderou com cerca de 7 minutos de avanço em relação ao seu mais direto perseguidor, mas teve que parar por ter tido problema nos pés. Na metade da prova, Zabala tinha mais de 1 minuto à frente do finlandês Virtanen, que era o 2º colocado. Zabala chegou exausto, mas ainda reuniu forças para vencer por cerca de 100 metros o britânico Sam Ferri,s que chegou em final excepcional descontando muito a diferença e até colocando em dúvidas se o argentino teria realmente ganho se decidisse dar seu sprint final um pouco antes. Não vamos falar de outro brilho argentino em maratonas olímpicas, Delfo Cabrera, pois uma vitória Argentina já machuca os brasileiros.
Imaginem duas, nem pensar... fica para outra vez.

 

Na maratona de 1936, em Berlin, o português Manuel Dias sofreu com uma das coisas que todos os maratonistas sabem: não se deve usar calçados novos em maratonas. E ele, que seguia o Argentino Zabala, que buscava o bicampeonato, teve que parar com problema nos pés causados pelos novos calçados. Dias ainda, pegou emprestados calçados militares de um rapaz da Juventude Nazista que assistia a prova e conseguiu completar na 17ª posição, com 2h49min. Zabala continuou na liderança até o km 28, quando foi alcançado por Kittei Son, que corria pelo Japão, mas era, de fato, coreano e se chamava Kee Chung Sohn. Zabala abandonou alguns quilômetros depois. O vencedor foi o coreano Sohn, que teve que correr pelo Japão, que dominava a Coréia, com o tempo de 2h29min19. Sohn nem olhou a bandeira japonesa no mastro enquanto ouvia o que ele chamava hino dos invasores.
 
 
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